O suicídio continua a ser uma causa de morte muito relevante mundialmente, com cerca de 800 mil mortes em 2015 (78% das quais nos países de menores rendimentos) e uma taxa anual de 10,7 suicídios por 100 mil indivíduos (dados da OMS), apesar de uma significativa variabilidade deste número quando são considerados os diferentes países, grupos etários e fatores sócio demográficos. Se por um lado a taxa de suicídio tem vindo a diminuir nos países ocidentais, tem ocorrido aumento nos países menos desenvolvidos.
O suicídio será responsável por cerca de 1,4% das mortes prematuras mundialmente. A Europa apresenta uma das taxas mais elevadas de morte por suicídio, sendo que em Portugal andará pelos 10 a 14,9 por 100 mil indivíduos por ano. Esta taxa aumenta de modo geral nas faixas etárias mais velhas.
O suicídio encontra-se em segundo lugar como causa de morte prematura na faixa etária dos 15 aos 29 anos (precedida pelos acidentes de viação) e em terceiro se considerarmos a faixa etária dos 15 aos 44 anos.
É mais comum no sexo masculino (quase duas vezes mais frequente), enquanto as tentativas de suicídio são mais frequentes no sexo feminino. Estas últimas são cerca de 30 vezes mais comuns que o suicídio consumado.
O suicídio pode ser considerado num continuum, desde as ideias de morte passivas aos pensamentos ativos sobre o suicídio, planos e intenção de o efetuar.
Muitos suicídios, tentativas de suicídio ou gestos auto lesivos sem intenção suicidária, ficam por notificar, sobretudo nos países de menores recursos económicos e por diversas razões, nas quais se incluem o estigma existente na sociedade relativo a estas situações e a legislação em vigor nesses países.
A maioria dos casos de suicídio está relacionada com a presença de patologia psiquiátrica (60 a 98%). O método escolhido varia consoante o país, a disponibilidade e fatores culturais.
As perturbações depressivas e outras perturbações do humor são as doenças psiquiátricas mais frequentemente associadas ao Suicídio.
Metade dos casos de suicídio têm, na sua base, uma destas patologias, sendo o risco de suicídio cerca de 20 vezes superior nos doentes com depressão. Tendo em conta que a depressão é a patologia mais fortemente relacionada com o suicídio, é preocupante o facto de mais de
metade dos doentes não se encontrar em tratamento ou não receber um tratamento adequado.
Outras doenças psiquiátricas com um enorme impacto nas taxas de mortalidade por suicídio, são a esquizofrenia e outras psicoses, a perturbação de stress pós-traumático, o abuso de substâncias, sobretudo de álcool, as perturbações da personalidade nomeadamente a
perturbação borderline e as doenças do comportamento alimentar.
A presença de algumas situações não psiquiátricas, com o cancro, o HIV e a dor crónica, sobretudo quando motivam incapacidade funcional marcada, associam-se também a um aumento significativo da mortalidade por suicídio.
São fatores de risco para suicídio que devem ser foco de especial atenção, a pertença a certos grupos profissionais como o dos polícias e médicos ou a grupos como o dos veteranos de guerra, o desemprego e baixos recursos económicos, o isolamento ou escasso apoio social, a
violência doméstica, a residência em ambientes urbanos e em condições habitacionais inadequadas e a existência de tentativas de suicídio prévias.
Como possíveis sinais de alarme para o risco de suicídio, há a considerar a tristeza marcada e persistente, o pessimismo, ou apatia, a letargia, a angústia, as alterações do padrão do sono e do apetite, as dificuldades de relacionamento interpessoal, o abuso de tóxicos, o insucesso escolar e os comportamentos agressivos ou impulsivos. Algumas pessoas despedem- se de familiares e amigos, ou oferecem objetos que lhes são significativos.
Há que assegurar que a pessoa em sofrimento recorra o mais precocemente possível à ajuda necessária, nomeadamente aos cuidados de saúde primários e consultas de especialidade (como as consultas de psiquiatria e psicologia) e em casos de risco imediato de suicídio, ao serviço de urgência do hospital da área de residência.
Tendo em conta que a maioria dos adultos que se suicidou, recorreu aos cuidados de saúde primários no ano anterior, estes estão em situação privilegiada no que diz respeito à identificação de casos de risco e início de tratamento, com referenciação para outros técnicos de acordo com o considerado necessário.
Existem também linhas de apoio telefónico às quais se pode recorrer, nomeadamente a linha telefónica SOS Voz Amiga, à Linha SOS Estudante e ao Telefone da Amizade.
Há que realçar que falar com alguém que apresente pensamentos de morte ou ideias relacionadas com o suicídio, não aumenta o risco de este se vir a consumar e é essencial que quem se encontra em sofrimento e considera o suicídio como a única solução viável, possa encontrar alguém disponível para o ouvir e ajudar a encontrar a ajuda necessária.
Não devem ser desvalorizadas as verbalizações acerca do desejo de morrer ou gestos auto lesivos (com intenção suicida ou não) destes comportamentos está um sofrimento emocional que deve ser sempre valorizado, tenha ou não havido risco de morte.
É também muito importante diminuir o acesso a meios letais, nomeadamente a pesticidas, a medicamentos ou armas.
Há que ter especial cuidado com o modo como o suicídio é relatado pelos meios de comunicação social, de modo a que não sejam fomentados os comportamentos de imitação em pessoas já susceptíveis e que possam ser fornecidas informações facilmente acessíveis, sobre como pedir ajuda.
Os comportamentos suicidários representam um problema muito relevante em saúde, merecendo por isso uma atenção prioritária de todos os agentes envolvidos.
Dra. Jennifer Santos, Psiquiatra
Integra o corpo clínico do Montepio Nossa Senhora de Nazaré desde 2015
